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O que vou ler hoje?

Adoro livros. Adoro ler livros. Adoro mergulhar nas suas histórias e fundir-me nelas. Adoro tudo o que está relacionado com livros. Até adoro estantes. Eu não sou eu se não tiver um livro para ler.

O que vou ler hoje?

Adoro livros. Adoro ler livros. Adoro mergulhar nas suas histórias e fundir-me nelas. Adoro tudo o que está relacionado com livros. Até adoro estantes. Eu não sou eu se não tiver um livro para ler.

Qua | 13.09.23

O seu lugar

Boas Leituras

Tudo é cinzento, pesado, feio, triste.
A cidade de betão. As pessoas apressadas e cabisbaixas, os mendigos com as suas camas de papelão. O barulho ensurdecedor do trânsito e das obras intermináveis. O ar denso da poluição dos canos de escape. O cheiro podre dos caixotes do lixo a abarrotar, o odor a mijo nos becos escuros. As cores berrantes dos anúncios gigantes espalhados pelas ruas, cores que lhe magoam os olhos cada vez que levanta o olhar do passeio sujo.
Sente que não pertence aqui, a este lugar, a esta cidade, mas talvez esteja errada. Também ela é cinzenta, pesada, feia, triste. Só o seu nome não pertence aqui.
Aurora. Luz do amanhecer, a claridade suave que anuncia o nascer do sol.
Não, nem o seu nome lhe pertence. Pelo menos é assim que pensa, é assim que se vê das poucas vezes que se olha ao espelho.
A pele pálida e os olhos sem vida e de cor estranha. As longas pestanas que quase tocam as sobrancelhas, o cabelo baço e emaranhado que não cresce.
A sua aparência sempre foi motivo de chacota na sua infância e adolescência. Nunca se enquadrou, nunca teve amigos.
A própria família a via como uma estranha. A quem ela sairia com aquele aspecto, perguntavam-se todos os dias de manhã quando se juntavam para tomar o pequeno almoço. Nunca em voz alta, claro, mas ela via a pergunta, a dúvida, o medo nos seus olhos, nas suas expressões, nos seus gestos.
Também a sua própria voz era estranha, dolorosa. Como um instrumento desafinado. Por isso, raramente falava.
Com o passar dos anos, aprendeu a manter-se invisível e a viver com a dor da solidão.
Nos dias em que a solidão ameaçava devorá-la com a sua boca esfomeada procurava refúgio no parque da cidade. Um recanto de luz no meio da escuridão.
Um jardim com os seus canteiros de flores rasteiras, os bancos de pedra à sombra de pequenas árvores, a fonte de água ao centro. Ali, os sons da cidade quase se perdiam no silêncio proporcionando momentos tranquilos.
Naquele lugar, na companhia dos seus livros, algo dentro de si cedia tentando libertar-se. Algo que não sabia nomear mas que lhe sabia bem. Uma sensação quente que a confortava, como um abraço.
Levantava a cabeça em direção ao céu, a vista desimpedida, e o sol beijava-lhe a pele fria da face. Nesses momentos, imaginava com seria ser tocada, sentir o toque de outra pele na sua. Nunca ninguém lhe tocava. Nem mesmo um leve roçar acidental, nunca ninguém se aproximava o suficiente.
Foi num desses dias no jardim que tudo mudou.
Sentada no banco duro de pedra do jardim, absorta com tal intensidade na história que lê, não repara na presença ao seu lado até que ela fala.
- Olá Aurora.
Sobressaltada, ergue o olhar para a voz suave.
- Olá - responde. Mas, com a surpresa, não se lembra de falar baixinho e a sua voz soa estridente mesmo aos seus próprios ouvidos e o seu primeiro pensamento é que provavelmente assustou aquela menina. Já treinou o seu coração para não sentir tristeza e, com um suspiro, espera que a menina se vá embora correndo.
Mas a menina continua à sua frente. Um sorriso doce desenha-se nas suas pequenas feições emolduradas por sedosos cabelos loiros. Descalça no seu vestido branco com os raios de sol à volta do seu corpo esguio, parece brilhar. Irradiar.
- Queres ir para casa? - pergunta a menina.
- Para casa?
- Sim, para casa. Vem, dá-me a mão.
Aurora, confusa, abana a cabeça tentando clarear os pensamentos. Isto é um sonho, estou a sonhar, pensa que essa é a única explicação para o que está a acontecer. Não sabe quem é esta menina, não percebe como sabe o seu nome e tem a sensação que algo nas feições da menina lhe lembra algo ou, talvez alguém.
Apesar do turbilhão de pensamentos que se digladiam dentro da sua cabeça, o seu corpo reage e, de moto próprio, levanta-se e pega na pequena mão estendida da menina. Deixa de sentir o chão debaixo dos pés e, a partir desse momento, nada faz qualquer sentido.
Tudo à sua volta são manchas indefinidas, formas sem contorno. Quando tenta focar o olhar em algo que pensa ter visto como que se desvanece num piscar de olhos. A única coisa real é aquela mãozinha presa na sua. Deixa-se afundar naquele doce vazio perdendo a noção do tempo e do espaço.
Deitada num fofo tapete verde, acorda com a melodia suave do chilrear dos pássaros que dançam sob o céu azul que se estende sem fim. Olha à sua volta, procurando a menina dos cabelos loiros e o que vê surpreende-a.
Um prado verdejante que se perde de vista. Flores de cores vivas. Hortênsias, íris, jacintos, lírios. Vermelhos, amarelos, azuis, rosas. Cores vibrantes que a fazem sorrir. Magnólias abundantemente floridas oferecem os seus cálices brancos e rosas perfumando o vento. Cerejeiras em flor pintam o horizonte de rosa.
Musgo espanhol pende dos ramos despidos de folhas e flores de árvores antigas. Borboletas esvoaçam alegres, pássaros movem-se na sua dança pelo céu. Vê colibris e animais que pastam ao longe.
Aurora observa toda aquela beleza enquanto caminha descalça pela relva.
- Isto é lindo, perfeito. É o paraíso e estou a sonhar! – sussurra Aurora extasiada. Ondas de felicidade fluem através do seu corpo e ela dança. Corre pelo prado, com os braços abertos e a cabeça erguida em direção ao céu rindo alto.
E, ali, bem à sua frente, um espelho dourado com flores desenhadas. Vê refletido o seu corpo despido. Desvia o olhar rapidamente, não quer ver. Sabe que se olhar para si verá que não pertence ali, àquele lugar lindo. Ela que é cinzenta, pesada, feia, triste. Só o seu nome pertence ali. Aurora.
Um som ecoa pelo prado, doce e melodioso. Ecoa cada vez mais alto, como num crescendo, e ela escuta. Escuta a música e repete-a para si mesma. Lágrimas deslizam pelo seu rosto. Escuta a música e é a resposta às suas preces. É bálsamo que lhe apazigua a mente, manto que lhe aquece o coração.
Olha para o seu corpo despido. A sua pele aveludada cintila, as longas pestanas cinzentas quase tocam as sobrancelhas macias da mesma cor. Os seus olhos violeta refletem a luz do sol e os seus cabelos caem-lhe soltos pelos ombros em ondas de flores e folhas minúsculas.
Entoa a canção e a sua voz límpida preenche o prado. É a sua oração.
Vê refletido o seu corpo feérico e compreende finalmente. Sente-se viva, sente-se grata, sente-se inteira. Pertence àquele lugar mágico.

 

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