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O que vou ler hoje?

Adoro livros. Adoro ler livros. Adoro mergulhar nas suas histórias e fundir-me nelas. Adoro tudo o que está relacionado com livros. Até adoro estantes. Eu não sou eu se não tiver um livro para ler.

O que vou ler hoje?

Adoro livros. Adoro ler livros. Adoro mergulhar nas suas histórias e fundir-me nelas. Adoro tudo o que está relacionado com livros. Até adoro estantes. Eu não sou eu se não tiver um livro para ler.

Qua | 27.09.23

Renascer

Boas Leituras

Tudo o que conhecia sobre si mesma tinha-se desmoronado.
Tudo o que ela julgava ser, tudo aquilo que ela sabia sobre si jazia, aos seus pés, num monte de cacos.
Durante dias, manteve-se ali, sentada no chão, rodeada pelos pedaços destroçados de si própria. A dor, qual abutre, pairava no alto, os seus olhos gulosos fixos nela. Sem aviso, descia sobre ela, cravando as suas garras afiadas na pele flagelada emergindo depois de beiços lambuzados de sangue e lágrimas. Uma donzela deitada no altar sacrificial, dócil e submissa, para satisfazer o prazer vil e insaciável dessa mestre cruel.
Entorpecida, começou a guardar todos os seus destroços, zelosamente, numa mala. Quando restavam apenas alguns bocados, sentiu-se vacilar, os seus movimentos tornando-se cada vez mais lentos, como se antecipasse o que aconteceria no momento em que todos os cacos estivessem embalados.
Uma combinação de plástico e tecido sintético grosso e áspero separava-a, agora, de tudo aquilo que sempre fora. E, então, esse pormenor, irrisório, tornou-se avassalador. Algo dentro de si cedeu. O pequeno e frágil fio que a ligava ao que restava de si própria quebrou-se.
Sentiu-se vazia, oca.
Levantando-se devagar, pegou na mala.
Deambulou sem destino, sem propósito.
Passava os dias envolta numa existência nublada e cinzenta. Existência cega, surda, muda. Era isco moribundo para o abutre faminto.
No silêncio frio e escuro, abria a mala e acariciava cada pedaço de si, recordando. Todas as noites, com afinco desmedido, urdia as suas memórias, farrapos gastos e remendados, num manto quente que lhe aquecia o corpo.
Sentia-se cansada. Caminhava dias inteiros, arrastando a mala atrás de si, o seu peso tornara-se um suplício. A pergunta quem sou eu? atormentava-lhe a mente, vezes sem conta. Um redemoinho perpétuo sem resposta.
De repente, pensa sucumbir às mãos da dor. Como seria mergulhar no vazio, fundir-se nele até ela própria deixar de existir? Era tão tentador.
Olha em volta, a praia está deserta e sente-se só.
Senta-se, sem forças, pousando a mala ao seu lado. Descalça os sapatos.
A areia é macia sob os seus pés doridos e o seu toque é abraço. Colo. Tem sabor a casa e é tudo aquilo que ela ansiava.
As cristas das ondas adornadas de pequenas pérolas cintilam ao luar e o rumorejar lento do mar embala-a. Nessa noite, adormece num sono profundo e tranquilo, as memórias guardadas na mala.
Um sonho vai tomando forma e é contada uma história. Na história, o dia é de celebração. Uma mulher está prestes a dar à luz e toda a família está reunida. A doula da aldeia assiste ao parto. A sua presença reconfortante é bálsamo para a dor e, numa última contração, a mulher dá à luz.
Com as suas mãos enrugadas e sábias, a anciã pega no bebé.  
- Quando nascemos, trazemos dentro de nós um pouco do Céu, a nossa alma. E isso é a nossa essência, é o que somos verdadeiramente. Ter Fé é acreditarmos que, durante a nossa vida na terra, merecemos ser esse pedacinho de Amor. – diz a doula entregando o bebé aos braços emocionados da mãe.
Ainda é noite quando ela desperta do sonho. Lágrimas de esperança correm-lhe pelo rosto, a lembrança do sonho gravada no coração.
Num sussurro, segreda ao mar todos os seus medos, todas as suas dores, todas as suas dúvidas vendo-os flutuar, levados pela corrente.
Abre a mala e, devotamente, reduz todos os pedaços destroçados a pó. Num sopro, entrega-os ao vento, deixando-os esvoaçar lentamente ao sabor da brisa.
Sente-se leve. Uma folha vogando livremente pelo ar.
O brilho cintilante das estrelas toca-lhe a pele e a sensação é inesperada. Inebriante. Inspira a beleza à sua volta. Beleza colorida, perfumada, melodiosa. Sente-a fluir pelo seu corpo, preenchendo o vazio.
Renasceu.
Sente-se feliz. Inteira. Viva.

 

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